A criação do PC do Brasil, Octávio Brandão e outras alagoanidades
Enio Lins
Intervenção, em 27 de março de 2025, no Programa Permanente de Formação do PCdoB em Alagoas
Abordaremos aqui a invenção do Partido Comunista do Brasil, marcando seu centésimo terceiro aniversário, e buscando um ângulo de abordagem diferente do usual, embora citando fatos conhecidos. E, considerando ser uma exposição para a militância alagoana, aqui se puxa – sem moderação – a brasa para a sardinha de Alagoas, como elemento extra para despertar a curiosidade, trazer à memória fatos históricos pouco visitados, e estimular às bases locais a mais estudos.
Focaremos, como espaço temporal, uma faixa de 30 anos, entre 1917 e 1947, recorrendo, preferencialmente, a episódios paralelos aos grandes acontecimentos. As contribuições de Octávio Brandão, nesta apresentação, estão resumidas e utilizadas – ampliadas – como fio condutor deste rico processo de criação e consolidação partidária.
Destaque-se que falamos sobre intervalos cronológicos de apenas cinco anos de distância entre a Revolução Russa e a fundação do PC do Brasil, efetivada dois anos depois da constituição da União Soviética (1920), e distante apenas três anos da criação da Internacional Comunista (1919) – que, em 1920, no seu terceiro congresso, define a lista das 21 condições para um partido ser classificado como Comunista. Considere-se ainda que, em 1919, antes dessas regras serem estabelecidas, aconteceu uma primeira tentativa de criação do Partido Comunista do Brasil, entidade que funcionou por um ano, sem ser reconhecida como tal pela III Internacional.

O alagoano Octávio Brandão e os fluminenses, Astrojildo Pereira
e Antônio Bernardo Canellas: a geração de anarquistas que arquitetaram o giro ideológico no Brasil [IAP/CEDEM/Unesp]
Grande eram as agitações em todo o mundo nas primeiras décadas do Século XX. A tragédia da I Grande Guerra Mundial provocou ondas de choque nas economias nacionais, mesmo em países fora do conflito. E a industrialização, tardia no Brasil, carregava consigo novíssimas contradições sociais. Nesta conjuntura em ebulição, a queda do czarismo, em 15 de março de 1917, sinalizava ao mundo grandes mudanças para o mundo. Em junho de 1917, começava, no Cotonifício Crespi, em São Paulo, a primeira greve geral no Brasil, sob o comando do movimento anarco-sindicalista. Se estendeu por praticamente um mês e resultou em conquistas significativas como o direito de reunião, aumentos salariais, a libertação dos presos e a proibição de despejo de operárias grevistas.
Para visualizarmos melhor o turbilhão de ideias naquele tempo, é importante situar que Lênin externou a teoria do “elo fraco da cadeia imperialista” em seu livro “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, publicado em 1916 (primeira edição em língua portuguesa somente em 1933). Tese que é uma inovação impactante na teoria marxista, posto Marx e Engels terem fundamentado a viabilidade de uma revolução socialista apenas nos países capitalistas mais desenvolvidos, apontando (dentre outras questões) como o ponto de ruptura o aguçamento da contradição entre o avanço dos meios de produção e o atraso das forças produtivas. A revolução explode Rússia tzarista, país muito atrasado (onde mourejavam os servos da terra – mujiques – produzindo em métodos herdados do feudalismo). Lênin inventou uma nova teoria, apensa ao teorizado (e sintetizado em 1848 por Marx e Engels no Manifesto), e essa tese virou prática quase imediatamente, a partir de outubro de 1917, com a revolução socialista transformando radicalmente tudo no antigo império dos Tzares, enfrentando gigantescos desafios políticos práticos e teóricos.
Em 1919 e em 1922, entre a militância fundadora do Partido Comunista no Brasil se destacavam anarquistas, ex-anarquistas, anarco-sindicalistas. Comenta-se que dos nove delegados ao Congresso de Fundação (em 1922), seis tinham origens anarquistas, dois se afirmavam marxistas, e um seria anarquista praticante. Foram os fundadores oficiais: Abílio de Nequete (barbeiro nascido no Líbano), Astrojildo Pereira (intelectual e jornalista carioca), Cristiano Cordeiro (contador nascido no Recife), Hermogênio Fernandes (eletricista gaúcho), João Pimenta (gráfico paulista), Joaquim Barbosa (alfaiate carioca), José Elias da Silva (sapateiro no Rio de Janeiro), Luís Peres (vassoureiro carioca) e Manuel Cendon (alfaiate espanhol e ainda militante anarquista).

Os nove delegados que fundaram o PC do Brasil em congresso de 25 a 27 de março de 1922
Ainda na primeira metade do século XIX começaram os grandes debates sobre a transformação da sociedade e a eliminação das injustiças socioeconômicas, refletindo a evolução do Capitalismo e da Revolução Industrial. Em 1840, Pierre-Joseph Proudhon, em seu livro “O Que é a Propriedade?”, se autodefiniu como “um anarquista”, explicando o termo “Anarquia” como a ausência de um governo formal e a promoção de uma sociedade baseada na cooperação voluntária e na autogestão. Em 1846, Proudhon publica o livro “A Filosofia da Miséria”, aprofundando a proposta ácrata, ensaio ao qual Marx responde, em 1847, com o contundente “Miséria da Filosofia”, rompendo relações. Em 1848, Marx e Engels escrevem o “Manifesto do Partido Comunista” e, em 1864, é fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores, conhecida como I Internacional, onde se eleva o tom do debate entre comunistas e anarquistas, com Karl Marx propondo a participação ativa nas lutas políticas e a criação de partidos operários, e Mikail Bakunin insistindo na destruição imediata do Estado e a formação de federações autônomas de trabalhadores. As tensões aumentam por conta das divergências práticas durante a Comuna de Paris (o “Assalto aos céus”, entre 18 de março a 28 de maio de 1871). Como resultado desses conflitos entre as esquerdas, em 1872, os anarquistas são expulsos da I Internacional. Mas a luta continuou.
Este conflito se transporta para os primeiros anos da Revolução Russa e construção da União Soviética, e pode-se destacar naquele cenário os confrontos bélicos (bélicos) na atual região da Ucrânia, entre o Exército Vermelho, então liderado por Leon Trotsky, e o Exército Rubro-Negro (também conhecido como Exército Negro ou Exército Insurgente Maknovista) sob o comando do anarco-comunista Nestor Ivanovitch Makhno, depois de ambos os exércitos terem enfrentado, juntos, e derrotado o poderoso Exército Branco (tropas reacionárias russas apoiadas pelas potências capitalistas). Com a vitória militar dos bolcheviques, em 1920, o líder Makhno se exilou na França até sua morte, em 1934.
Entre 1919 e 1922, no Brasil – sem tiros, mas com muita dureza – as duas teorias (ou três, considerando o anarco-comunismo) se confrontaram em teses anarquistas e comunistas. Até então, o anarquismo era a filosofia majoritária entre as correntes revolucionárias, e a fundação do Partido Comunista (tentada em 1919 e efetivada em 1922) estressou e contrapôs grandes lideranças da esquerda brasileira. O principal debate foi protagonizado entre Octávio Brandão e José Oiticica. Essa contenda permeou as rodas de conversa e os principais jornais da época, alcançando inclusive a imprensa convencional. Brandão tinha como trincheira periódicos como “O Proletário” e Oiticica disparava nas páginas de “A Plebe”. Amigos até então, deixaram de se falar, ficaram de mal, tal qual Marx e Proudhon no século anterior.

José Oiticica & Francisca Bulhões e prole, no Rio de Janeiro, 1923: José Filho, Vanda,
Sônia, Selma, lauda, Dulce, Clara, Vera.
Falemos de José Oiticica. Grande pensador, vivente entre 1882 e 1957. Mineiro, mas tido e havido como alagoano, por ser filho do alagoano Francisco de Paula Leite e Oiticica (1853/1927), intelectual e advogado, deputado (entre 1891 e 1893) e senador por Alagoas (1894/1900). Relata Renato Luiz Lauris Junior, no livro José Oiticica: reflexões e vivências de um anarquista: “José Rodrigues Leite e Oiticica nasceu em Oliveira, interior de Minas Gerais, em 22 de julho de 1882, época em que seu pai ali exercia o cargo de promotor público, seguindo depois para Alagoas, terra de seus familiares”.
José Rodrigues Leite e Oiticica foi professor, poliglota, dramaturgo, poeta parnasiano, filólogo, naturalista, notável teórico e ativista anarquista em tempo integral. Estudou Direito e Medicina, e não concluiu nenhum dos dois cursos em favor da militância, do magistério e da pesquisa filológica. Preso várias vezes por seu ativismo, tornou-se uma referência de destaque internacional para os movimentos anarquistas e ainda hoje estudado e reverenciado pelos libertários mundo afora.
Para realçar a alagoanidade do mineiro Zé Oiticica, cito descrição (feita por seu contemporâneo José Romero, citato por Lauris Júnior) do momento em que ele entrou em contato com a Federação Operária do Rio de Janeiro: “Um dia José Oiticica, com a sua inseparável pasta, subiu a escada do sobrado, entrando no recinto dos trabalhadores, que não tinham medo de ouvir falar do ideal anarquista e ler os seus pensadores e propagadores; lugar perigoso segundo os burgueses caçadores de votos e demais defensores do regime capitalista. Logo deparou com vários grupos, uns sentados e outros em pé. Ao encontro dele, por ser pessoa desconhecida dos presentes, foi um membro da comissão administrativa da Casa. Era um companheiro, carpinteiro de profissão, mulato, natural de Maceió, de quem no momento, só recordamos o sobrenome, que era França. – Que deseja o nosso amigo? – perguntou-lhe. – Desejava falar com o presidente ou diretores – respondeu Oiticica. – Aqui não temos presidentes nem diretores – replicou por sua vez o companheiro alagoano (…) – Muito bem, – disse Oiticica – e a seguir pronunciou mais algumas palavras que não recordamos bem, cujo sentido fora de haver encontrado alguma coisa do que desejava e lhe causava satisfação”.
José Oiticica casou-se com Francisca Bulhões, provavelmente alagoana, e constituíram numerosa família, na qual se destacaram nacionalmente José Oiticica Filho (intelectual e fotógrafo) e Sônia Oiticica (atriz e produtora cultural). Oiticica Filho, por sua vez, é pai de Hélio Oiticica, considerado um dos artistas visuais mais importantes para a arte moderna brasileira, tendo criado conceitos como os “parangolés”. As raízes alagoanas foram preservadas na família por gerações, e tanto o anarquista José quanto sua esposa e filhos sempre tiveram Alagoas como refúgio. Frequentemente, se abrigavam aqui, seja para lazer, seja para fugir das perseguições políticas sofridas em território carioca ou paulista.

José Oiticica ao longo da vida, sendo as imagens de 1918 e 1924 fotografadas
durante duas de suas muitas prisões
Vamos agora ao célebre Octávio Brandão. Ele não esteve entre os nove delegados fundadores, nem integrou a primeira direção (composta por 10 membros) eleita em 1922, apesar de sua proeminência no debate em defesa da fundação do Partido Comunista no Brasil, e de ter sido um dos líderes no primeiro esforço de fundação, em 1919. Mas, para além da polêmica com os ex-companheiros de anarquismo, Brandão garantiu mais um posto naquele período ao publicar, em 1923, a primeira versão brasileira do Manifesto Comunista. Octávio não usou a versão lusitana de 1872, feita em Lisboa, considerada falha, e realizou sua tradução a partir da conceituada edição, em francês, assinada por Laura Lafargue, filha de Karl Marx.
Em fotografia de 1919, numa imagem da série colhida quando da primeira tentativa de organizar o Partido Comunista no Brasil, veem-se três luminares: Octávio Brandão, Antônio Bernardo Canellas e Astrojildo Pereira. Não visitaremos hoje o legado do camarada Astrojildo, mas é indispensável reestudá-lo, e lembrar que ele foi um intelectual de grande envergadura, um dos maiores especialistas em Machado de Assis, jornalista, escritor e crítico literário. Astrojildo Pereira Duarte Silva nasceu em 1890 e morreu em 1965, aos 75 anos. Numa segunda fotografia ainda da experiência de 1919, posam para a posteridade Octávio Brandão, Astrojildo Pereira e Afonso Schmidt (de pé); Edgard Leuenroth e Antônio Bernardo Canellas (sentados).
Antônio Bernardo Canellas, fluminense, nasceu e morreu em Niterói. Viveu 38 anos muito movimentados, entre 1898 e 1936. Jornalista e tipógrafo, viajou bastante e se teve efêmera clebridade mundial por sua estrepitosa participação no IV Congresso da Internacional Comunista, em Moscou. No histórico evento, transcorrido em 1922, entre 5 de novembro e 5 de dezembro, Canellas ganhou fama por ter sido “o latino que ousou interpelar Trotsky”. Segundo as crônicas, ele teria chamado a atenção, desde o começo dos trabalhos, por não se adaptar ao processo de pedir inscrição e aguardar a hora de falar. Botava a boca no mundo, em francês ou português, cortando qualquer orador que estivesse com a palavra, quando lhe dava na telha. E nessa toada, roubou a cena quando, em meio a um pronunciamento de Leon Trotsky (cuja autoridade naqueles tempos se ombreava ao próprio Lênin), o delegado do PC do Brasil interrompeu e discordou frontalmente do ícone soviético – e logo na questão (menor) da maçonaria, pois o representante brasileiro era (também) maçom…

Líderes anarquistas à época da fundação do PC do Brasil na tentativa de 1919: Octávio Brandão, Astrojildo Pereira
e Afonso Schmidt (em pé); Edgard Leuenroth e Antônio Canellas (sentados)
Canellas terminaria expulso do Partido Comunista, logo depois de retornar ao Brasil, em novembro de 1923. Seguiria na militância anarquista e maçom. Preso em 1936, pela polícia de Vargas, morreu provavelmente sob tortura. Em sua atribulada trajetória, é considerado como o ponto de partida para sua relevância nacional, sua atuação em Viçosa. Sim, a Viçosa alagoana, lugar aonde chegou em 1916 e passou a produzir o jornal “Tribuna do Povo”, em parceria com Octávio Brandão. Em seguida, muda-se para Maceió, e passa a editar “A Semana Social”, ambos periódicos anarquistas considerados referências na esquerda brasileira no Século XX. Esses passos iniciais têm sido objeto de historiadores, como pode se ler, por exemplo, em tese apresentada pelo professor Bruno Araújo no XXVIII Simpósio Nacional de História, realizado em Florianópolis, julho de 2015.
Voltemos a Octávio. Viveu e lutou por 83 anos, entre setembro de 1896 e março de 1980. Graduou-se em Farmácia em Pernambuco. Antes, aos 16 anos de idade já dizia a que veio quando rompeu com o catolicismo, chocando a família e a sociedade viçosense. Aos 18 anos publicou “Canais e Lagoas”, considerado um dos primeiros livros ecológicos do Brasil, estudo onde descreve o meio-ambiente alagoano no Complexo Estuarino Mundaú-Manguaba com um rigor científico e estilístico que lembra os relatos de Euclydes da Cunha ao explicar a natureza em torno de Canudos. Em 1919 anos mudou-se para o Rio de Janeiro e, naquele mesmo ano, figura entre os pioneiros (anarquistas e/ou anarco-comunistas) que tentam organizar um Partido Comunista no Brasil.
Em 1925, já filiado ao Partido Comunista do Brasi, é um dos fundadores, e primeiro editor, do jornal A Classe Operária. Em 1924, um ano depois de editar sua tradução do Manifesto, publica “Agrarismo e industrialismo: ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São Paulo e a guerra de classes no Brasil” considerado o primeiro livro de análise marxista sobre a sociedade brasileira. Em 1928, aos 32 anos, é eleito como um dos dois primeiros parlamentares comunistas em nosso país, juntamente com Minervino de Oliveira, ambos Conselheiros (Vereadores) no Rio de Janeiro, pelo Bloco Operário Camponês.

Octávio Brandão em idades diferentes, autor, entre outros de “Canais e lagoas” (1918), “Agrarismo e industrialismo (1926)
e, se livro de memórias, “Combate e batalhas” (1978)
É vasto o acervo legado por Octávio Brandão, seja em inúmeros artigos publicados em jornais e revistas, seja em seus livros, alguns considerados clássicos da política e ideologia no Brasil. Os mais famosos são “Canais e Lagoas”, “Agrarismo e Industrialismo”, “A Mineralogia e Geologia de Canais e Lagoas”, “O Caminho”, “O Niilista Machado de Assis”, “Poesias de Laura e Otávio Brandão”, e o extenso relato autobiográfico “Combates e Batalhas” (obra que ele só publicou o primeiro volume). Todos são objetos de estudos nos mais vários níveis de pesquisa.
Sobre Octávio temos vários títulos publicados, e existe material suficiente para outros tantos mais. Dos editados poder-se citar: “Octávio Brandão – Centenário de um militante na memória do Rio de Janeiro”, de Luitgarde Cavalcanti; “Memória, Anarquismo e Omissão em Octávio Brandão”, de Alice Anabuki, “Octávio Brandão e as matrizes intelectuais do Marxismo no Brasil”, de Felipe de Lacerda. Para pesquisas, as fontes primárias (documentos inéditos, cartas, fotos…) estão resguardadas no Arquivo Edgard Leuenroth, da UNICAMP, cujo volumoso catálogo “Octávio Brandão” está dividido em três volumes.

Laura e Octávio Brandão
Durante sua vida de revolucionário, Octávio Brandão foi preso 17 vezes. Mas em 1931, a detenção o levou para um destino inesperado, o exílio. Punição incomum para comunistas naquele tempo, ele e toda sua família – a esposa Laura e as filhas Sátava, Vólia e Dionysa – foram deportados para a Alemanha. Era o início da Era Vargas, seis anos antes do endurecimento fascista do Estado Novo (que, dentre outras desumanidades, deportaria para a Alemanha Nazista a comunista judia-alemã Olga Benário). A inusitada punição da família Brandão, acho eu, motiva estudos sobre sua ocorrência. Chegaram em solo germânico durante a República de Weimar (1918/1933) período democrático em que o Partido Comunista Alemão tinha força significativa. De lá, a família, quase imediatamente, foi para Moscou, onde viveriam por anos, alguns o resto de suas vidas. Na Rússia, mais uma filha seria gerada pelo casal: Valná. Octávio voltaria ao Brasil apenas em 1946, tendo vivido de perto os horrores da invasão nazista à União Soviética, durante a II Grande Guerra Mundial. Laura Brandão morreria durante a evacuação de Moscou, em trânsito na altura dos Urais, em 1943.
Impossível não falar em Laura Brandão. Vamos (neste e nos quatro parágrafos seguintes) a trechos sobre ela pinçados, principalmente, do trabalho apresentado por Maria Elena Bernardes, pesquisadora da UNICAMP durante o XXIII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Londrina, 2005. O texto é uma fração da dissertação da citada pesquisadora em seu mestrado “Laura Brandão: a invisibilidade feminina na política”, defendida em 1995, na UNICAMP.

1931: Laura e Octávio, com as filhas Sátva, Vólia e Dionysa, a bordo do vapor alemão
Weser, rumo ao exílio
“Laura da Fonseca e Silva, depois do casamento com Octávio Brandão, Laura Brandão, nasceu no Rio de Janeiro, na última década do século XIX, quando uma nova paisagem se descortinava na Capital da República (…). Intérprete de Castro Alves, Laura recitava suas poesias e as dos amigos poetas. Olavo Bilac, com quem recitava seus versos, era rigoroso. Dizia: ‘tenho vontade de meter-me embaixo da mesa quando, numa sala, alguém diz que uma moça vai recitar versos meus’. No entanto, referindo-se a ela numa reunião literária na casa de Coelho Neto, disse: ‘ouvir Laura é ouvir a própria poesia’”.
“Em 1921, casou-se com o comunista Octávio Brandão. Do casamento com Octávio, teve quatro filhas: Sáttva (1922), Vólia (1923), Dionysa (1925) e Valná (1932). As três primeiras são brasileiras. A última nasceu em Moscou. Após o casamento, Laura foi se distanciando lentamente da elite literária da qual fazia parte. Junto com Octávio, envolveu-se com o mundo dos comunistas e trocou os salões literários pelas ruas, greves operárias, reuniões sindicais e a redação do jornal A Classe Operária, órgão oficial do PCB (Partido Comunista do Brasil). Sempre presente em comícios com ‘as filhas pelas mãos’, sua participação mais relatada é a do episódio da Praça Mauá, no Rio de Janeiro, em 25 de maio de 1929, num comício organizado em solidariedade à greve dos gráficos em São Paulo, quando Laura, revelando uma liderança ímpar, dominou os soldados que avançavam contra os manifestantes”.

Octávio Brandão, de punho em riste, com Minervino de Oliveira, em campanha para intendentes (vereadores) do Rio de Janeiro, em 1928.
“Desde 1922, dedicou-se à literatura marxista. Sua militância feminista se deu junto ao Comitê de Mulheres Trabalhadoras (1928), ligado ao Bloco Operário Camponês, do qual foi uma das fundadoras” (…) “Na tarde do dia dezoito de junho de 1931, quando a família, deportada pelo Governo Getúlio Vargas, partiu para o exílio. Brandão saiu da Casa de Detenção e foi direto para o cais, onde Laura e as três filhas o esperava. Cercados por oito agentes da polícia, foram embarcados. Eram 15:45 horas quando o navio Weser deixou o cais da Praça Mauá”.
Laura foi locutora da Rádio Moscou, em programas produzidos para o público ouvinte nas línguas portuguesa e espanhola. Luitgarde Cavalcante, reproduzindo testemunhos daquela época em seu livro sobre Octávio Brandão, descreve que Laura (sofrendo de câncer e dos rigores do frio), ao morrer durante a retirada dos civis da capital soviética por conta da aproximação das tropas nazistas, teve um sepultamento honroso, com sua cova cavada à picareta, pois o terreno estava muito congelado, e que naquela cerimônia de despedida, Dolores Ibaruri (La Pasionaria) usou da palavra para homenagear a camarada brasileira. Em 1965, os restos mortais de Laura Brandão foram trasladados de Ufá para Moscou, e depositados no cemitério de Novodevitchy, considerados um dos 10 mais imponentes do mundo e local reservado para heróis, intelectuais e figuras renomadas da União Soviética.
Octávio Brandão retorna ao Brasil em 1946, agora casado com Lúcia Prestes, irmã de Luiz Carlos Prestes (com quem o camarada alagoano não se dava bem). Um ano após o seu regresso, tem seu nome lançado – como em 1928 – a vereador na chapa do PC do Brasil nas eleições complementares de 1947 (o Distrito Federal foi a única cidade que teve eleição municipal), quando os estados elegeram mais um senador e vários deputados federais. Aparentemente, a direção partidária não apostava muito no cunhado brigão do Cavaleiro da Esperança, e colocou-o na 14ª posição na lista dos 50 inscritos. A lista contempla, pelo menos, outros dois alagoanos notáveis, Pedro Motta Lima e Jararaca, respectivamente, nas 15ª e 24ª indicações.

1947: Capa do jornal Tribuna Popular e lista oficial das candidaturas comunistas para
as eleições municipais, no Rio de Janeiro (Distrito Federal)
Depois de 19 anos de sua primeira eleição, e de 15 anos fora do Brasil, Octávio Brandão é eleito como o 3º mais votado na chapa comunista (com 5.121 votos). Nesse pleito, o PC do Brasil arrebatou 18 das 50 cadeiras (36% das vagas) na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, elegendo as duas primeiras mulheres comunistas da história brasileira: Arcelina Morchel, advogada, e Odila Schmidt, funcionária da Light. João Amazonas (deputado federal eleito em 1945) não venceu a eleição para o senado, mas conquistou 122.632 votos (29,5% dos votantes). Em 1948, todos os mandatos do Partido Comunista do Brasil, em todos os níveis, foram cassados. A legalidade só seria reconquistada 37 anos depois, em 1985.
Sempre polêmico, voluntarioso, Octávio foi ampliando suas divergências com a direção partidária. Amontoavam-se novas e antigas divergências. O alagoano sempre condenou o desfazimento da política ampla do Bloco Operário Camponês, se contrapôs à tentativa de insurreição em 1935, objeção feita quando exilado na Rússia. Octávio também criticava duramente a não-participação dos comunistas na chamada Revolução de 30, com bem destaca Sérgio Barroso, acrescentando que o alagoano Góes Monteiro foi o portador da proposta de Vargas à Prestes para que este assumisse o comando militar do movimento. Brandão também rejeitava o Prestismo (antagonismo azedado, talvez, pelo parentesco circunstancial). Essas discordâncias e outras querelas políticas e ideológicas fizeram como que o velho militante fosse se isolando e se recolhendo à posição de comunista sem-partido. Rompido com o PCB, não participou da reorganização do PC do Brasil em 1962. Morreu no Rio de Janeiro, em 15 de março de 1980, antes de concluir o segundo volume de “Combates e Batalhas”.

Nise da Silveira em diversos momentos de sua longa e revolucionária vida
Para concluir esta exposição, poderíamos escolher várias outras personalidades alagoanas que militaram no Partido Comunista do Brasil desde a fundação, até nossa linha de corte, em 1947. Na cena fotografada onde Portinari recebe a carteira de filiado ao Partido Comunista, estão dois alagoanos notáveis: Graciliano Ramos e Pedro Motta Lima. Poderíamos também optar pelos dois outros irmãos Motta Lima (Paulo e Joaquim), ou pelo genial Jararaca (José Calazans). Mas para encerrar, por ora, o quesito “alagoanidades”, a escolha será uma mulher.
Doutora Nise da Silveira. Nascida em Maceió, em 1905, formou-se como Médica na Faculdade de Medicina da Bahia, a única mulher entre 157 homens matriculados. Resume a Wikipédia: “mudou-se para o Rio de Janeiro em 1927, morando em Santa Teresa, e teve como vizinhos o poeta Manuel Bandeira e o líder comunista Octávio Brandão, responsáveis por fazê-la ter contato com a leitura marxista”. A partir de então, ela começou a frequentar as reuniões e palestras no Partido Comunista, tornou-se militante nos anos 30 e foi uma das poucas mulheres a assinar o Manifesto dos Trabalhadores Intelectuais ao Povo Brasileiro. Teria tido problemas em uma das células que frequentou, sendo acusada de “trotskismo”. Na sequência da repressão aos comunistas por conta da insurreição de 1935, foi denunciada por uma enfermeira como leitora de livros marxistas. Presa, ficou no Presídio Frei Caneca entre 1936 e 1937, e durante algum tempo teve Olga Benário como uma das companheiras de cela. Durante esse período de detenção conheceu Graciliano Ramos, apesar de presos em áreas separadas (masculina e feminina). Conversavam através de frestas nos muros, conforme relatado em “Memórias do Cárcere”. Depois de liberada, conseguiu retornar ao serviço público e ampliar seu trabalho revolucionário na psiquiatria. Jamais renegou sua militância comunista.

Prontuário da Polícia Política, de 1941, sobre Nise da Silveira
Nise casou-se com Mário Magalhães da Silveira, colega de turma e primo legítimo em primeiro grau. Nascido em Maceió em 1905 (no mesmo ano da prima e esposa) morreu no Rio de Janeiro em 1986. Médico sanitarista, é considerado um dos percussores das modernas políticas de saúde pública no Brasil, e sua visão altamente social influenciou gerações, como pode ser lido no site da Scielo. Mário era igualmente comunista, militante efetivo – conforme relato pessoal da antropóloga Luitgarde Cavalcanti, que conviveu muito com o casal. Segundo a grande intelectual alagoana, Mário teve divergências políticas com a linha partidária, sendo acusado de colabor tecnicamente – nas políticas públicas de saúde – com o governo Vargas. Jamais esteve sob suspeição de colaboração política. Mário justificava sua atitude como importante para salvar vidas da população e para proteger ativistas perseguidos pelo Estado Novo. Seu nome não consta em nenhum relatório conhecido sobre esse período. Mas é mais um nome, significativo para a alagonidade, a ser respeitado, valorizado e pesquisado.

Dona Nayde Cardoso, em 1937, com os filhos: Fernando Henrique é o primeiro à
esquerda e, no alto, Leônidas Cardoso como jovem oficial
Numa foto de 1937, Dona Nayde Cardoso posa com os filhos, no Rio de Janeiro. Nayde nasceu em Manaus, capital do Amazonas, filha de família alagoana da Viçosa, parente direta de Octávio Brandão. Seu marido, general Leônidas Cardoso, paulista com família de origem goiana. Além de militar, foi deputado pelo PTB (entre 1955 e 1959), jornalista e advogado. Participou da Revolução de 30 e, em 1931, ocupava posição de destaque político e militar, só rompendo com Vargas muito tempo depois. A pergunta é: Teria o oficial articulado – por conta própria – uma punição diferenciada para o primo comunista de sua mulher, de forma que o livrasse (e sua família) de uma onda de violências que se anunciava como devastadora contra os comunistas no Brasil? Leônidas e sua esposa Nayde são os pais de Fernando Henrique Cardoso.
Em todas as suas visitas à Moscou, Fernando Henrique sempre procurou seus parentes russos, descendentes de Octávio Brandão. No primeiro contato, ainda era Senador por São Paulo, e a União Soviética estava de pé. Ele contou com a ajuda discreta, e eficiente, da KGB para localizar a prima Dionyza, filha de Octávio e Laura, conforme relatado a este repórter que vos escreve agora.

Enfim, são detalhes nem tão pequenos assim na história das relações de uma comunidade (a alagoana) com a trajetória das esquerdas e, em particular, do Partido Comunista do Brasil. Reembrando: este modesto estudo (jornalístico) se refere ao período 1917-1947. No mais, tem muito mais.
Links sugeridos para consutas:
https://renatorabelo.blog.br/2017/03/17/augusto-buonicore-1919-o-primeiro-partido-comunista-do-brasil-e-a-revolucao-russa/ – sobre a tentativa de 1919, em postagem no blog Renato Rabelo
https://repositorio.unesp.br/server/api/core/bitstreams/89f04224-91f6-4eb1-a8fe-e80f9279f4a6/content – RENATO LUIZ LAURIS JUNIOR: JOSÉ OITICICA: reflexões e vivências de um anarquista;
https://www.estelnegre.org/documents/joseoiticica/joseoiticica.html Ateneu Estrela Negra – Sevilha/Andaluzia, Espanha (texto em língua andaluz) – sobre José Oiticica;
file:///C:/Users/eniol/OneDrive/%C3%81rea%20de%20Trabalho/bernardes_mariaelena_m.pdf – tese de mestrado sobre Laura Brandão, por Maria Elena Bernardes;
https://en.wikipedia.org/wiki/Nestor_Makhno sobre Nestor Makhno, líder do anarco-comunismo ucraniano
https://pt.wikipedia.org/wiki/Piotr_Kropotkin Sobre Kropotkin, o fundador do anarco-comunismo
https://centroculturaloctaviobrandao.blogspot.com/2020/09/octavio-brandao-124-anos.html – sobre Octávio Brandão
https://www.historiadealagoas.com.br/octavio-brandao.html – sobre Octávio Brandãohttps://www.scielo.br/j/csc/a/wmqPb7MbvN8KnZyFGq9tmsd/ – sobre o papel de Mário Magalhães da Silveira como médico sanitarista